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Um estudo interpretativo sobre Life is Strange

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Qual é a significância do período que marca a transição entre a fase infantil e a fase adulta? Como é lidar com toda a pressão que um adolescente sofre? O que realmente significa ser um adolescente? Infelizmente, tais perguntas estão envoltas pela obscuridade da incerteza que nos impede de enxergar os rumos que deveriam acarretar na construção de um futuro planejado desde cedo por nossos pais. O idealismo carregado durante a infância e por grande parte da adolescência é como um espelho que insiste em refletir a subjetividade de um mundo idealizado que tenta fugir do materialismo, entrando em conflito com as ideias pré-estabelecidas pelos adultos, figuras que resolvem despejar todas as suas expectativas e sonhos para que seus filhos não se tornem tão frustrados quanto eles mesmo. Como resultado de tamanho combate psicológico, a ruptura com o mundo imaginado pelos jovens acaba por se tornar rachaduras, tendo como consequência a inserção do indivíduo na realidade nua e crua de um mundo não tão belo assim.

Na tentativa de amenizar as dúvidas causadas por essas crises, utilizamos uma maquiagem carregada para esconder a fragilidade emocional, fornecendo uma falsa ilusão de segurança plena. O cara que carrega o símbolo de machão bombado que pega todas na balada pode estar sofrendo com a separação de seus pais. A patricinha que faz brincadeiras com o nerd da escola pode ser uma simples garota que lida com problemas de autoestima. O garoto que vai bem nas notas e é o centro das atenções durante as aulas ao ser considerado o exemplo a ser seguido por seus colegas pode estar sendo corroído pela constante dúvida sobre qual curso deve seguir ao adentrar em uma faculdade. A vivência em um grupo social é inerente ao ser humano, e é exatamente na adolescência onde isso se torna cada vez mais relevante para a construção da identidade em particular.

Corredores lotados após o término de mais uma aula durante o período matutino. O burburinho e as risadas ecoam em volume alto. O pobre garoto legal e simpático está sendo zoado pelos jogadores do time de futebol, enquanto um casal troca flertes perto de uma sala de aula.  A timidez toma conta, fazendo com que a única escapatória seja se encolher contra uma parede e desejar não ser vista por ninguém. Como se não bastasse, ter que engolir uma brincadeira feita pela garota mais prepotente e mesquinha que conheceu em toda a sua vida não é uma das melhores experiências. O que fazer para chegar ao banheiro o mais rápido possível sem chamar muita atenção? Simples, coloque os seus fones de ouvido e ligue a sua playlist no volume mais alto. Max Caulfield é introduzida em Life is Strange por meio de uma cena que provavelmente qualquer um já deve ter vivenciado, estabelecendo um vínculo emocional quase que instantâneo com o jogador por uma representação simples da solidão.

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Na verdade, Max é uma garota que nunca ousou quebrar regras, sendo o orgulho da família por ser um exemplo para ser exibido como um troféu. O choque com um mundo cheio de pensamentos e personalidades tão múltiplas acaba por fazer com que a personagem reflita sobre si mesma. Para embalar a sua caminhada inicial, a música To All of You, da banda francesa Syd Matters, é utilizada para demonstrar a triste constatação da mesma, que percebe ser apática ao intenso conglomerado de influências presentes na Academia Blackwell. Em seus versos iniciais, o compositor faz um discurso para todas as garotas “americanas” que já não acreditam mais em si mesmas, tentando demonstrar a sua importância e relevância individual. Interpretando a música como uma metáfora, Max seria uma entre as milhares de garotas que lidam com o problema da baixa autoestima e a insegurança para iniciar novas amizades. Todavia, de uma forma irônica, a coincidência do recebimento da dádiva de controlar o tempo ao seu bem querer e o encontro com uma velha amiga servem para reacender um coração que antes se encontrava angustiado, mas que agora entra em um estado de êxtase.

To all of you, American girls, it’s sad to
Imagine a world without you
American girls I’d like to
Be part of the world around you

(…)

Por influência do destino ou por mera coincidência, os poderes temporais de Max Caufield carregam uma dualidade que deve ser interpretada em diversos momentos pelo jogador através de decisões que podem influenciar no desenvolvimento da história. O lance de que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades não é só uma besteira dita por um senhor de idade para o seu sobrinho. Aqui, assim como nas histórias em quadrinhos, tal lição nos mostra que nem sempre a escolha mais divertida ou prazerosa significa fazer o certo, e nem sempre o certo é o melhor para os nossos corações.

Segundo a filosofia chinesa, o Yin Yang é a relação entre energia opostas, proporcionando um equilíbrio necessário para todos os seres vivos. O Yin representaria o bem, o lado positivo das coisas, enquanto que o Yang representaria o mal, o lado negativo. Enquanto isso, no lado ocidental, um dos princípios da Física afirma que “opostos se atraem”. O relacionamento entre Max e Chloe nada mais é do que o encontro do Yin com o Yang. O lado positivo que acaba atraindo o lado negativo. Dois mundos tão diferentes que se unem através de um único sentimento: o amor.

Enquanto Max carrega em seu cerne a pureza e a inocência, Chloe decide escolher o caminho da rebeldia para lidar com a perda prematura que lhe assola desde a sua entrada no mundo da puberdade. O lado punk da jovem entra em contraste com o conservadorismo paranoico de seu padastro, fazendo com que o jogador perceba que Chloe não consegue lidar com o fato de sua mãe ter seguido em frente após o abrupto término do casamento entre seus pais. A separação e a perda de entes queridos é um momento sensível para qualquer adolescente, gerando a revolta, a raiva e a inconformidade. A reação entre sensações tão explosivas acaba ocasionando em um sentimento de culpa que se alastra como uma febre que só possui um único remédio: a aceitação do fato de que nem tudo na vida é duradouro, tendo o seu início, meio e fim.

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Em meio aos seus tantos ensinamentos, Life is Strange demonstra que o estereotipo, visto em um primeiro momento, pode ser algo que funciona de forma preconceituosa. Na trama do jogo, sua principal função é servir de apoio para que o roteiro quebre certos paradigmas, como uma espécie de máscara que vai sendo retirada a partir do estabelecimento de vínculos com os estudantes de Blackwell. Com o advento das novas tecnologias informativas, antigos problemas da década anterior acabaram por adquirir uma nova roupagem, como é o caso do Cyberbulling, que nada mais é do que uma ramificação do Bullying convencional das escolas e universidades que acabou se alastrando pelos campos virtuais. É importante ressaltar que os novos problemas não minimizam os antigos, muito pelo contrário. Ao longo dos cinco episódios, conseguimos perceber claramente que o impacto do abuso contra a mulher e a violência doméstica exercida em alguns centros familiares são temas amplamente refletidos através da personalidade agressiva ou conturbada dos personagens. Novos vícios, como o alcoolismo e o uso de drogas, característicos do momento de descoberta vivenciado na juventude, não são só demonstrados durante festas universitárias, mas na vida cotidiana do campus universitário.

Tais dilemas são escondidos pelos personagens através do uso de uma espécie de armadura que acaba por transpor os limites do emocional para o físico, visando esconder o medo e até mesmo a ideia de um pré-conceito sobre sua pessoa, nos mostrando que até o ser humano mais arrogante e prepotente de todos pode ser muito mais do que os olhos podem ver.

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Obstáculos sempre são e serão colocados no trajeto de nossa caminhada neste “pequeno planeta azul”. Todavia, a forma com que lidamos com eles varia de indivíduo para indivíduo. Uns preferem fugir para tentar esquecer, outros preferem se esconder e esperar a tempestade passar. Alguns preferem persistir, mesmo sabendo que as chances são mínimas, enquanto outros adiam o inevitável. De uma forma ou de outra, os obstáculos terão que ser enfrentados , mas isso não quer dizer que devemos fazer isso sem ajuda de alguém. A mais importante lição de Life is Strange, e aquela que provavelmente irá te marcar mais, é que a amizade é muito mais do que uma simples palavra. Ela é um elo além de nossa compreensão que consegue unificar pessoas com personalidades e pensamentos tão diferentes, e essa união serve para nos manter juntos sob a luz de um mesmo sol. É, talvez a Física esteja realmente certa: os opostos se atraem.

Let’s say sunshine for everyone
But as far as I can remember
We’ve been migratory animals
Living under changing weather

Someday we will foresee obstacles
Through the blizzard, through the blizzard
Today we will sell our uniform
Live together, live together

(…)

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