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O Multiverso em The Flash e sua influência no DCEU

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AVISO! É importante ressaltar que o texto pode conter spoilers sobre as duas temporadas de The Flash e sobre o filme Batman v Superman: Dawn of Justice, então siga por sua conta e risco.

Por se tratar de uma mídia que necessita estar constantemente relacionada ao cotidiano e aos seus leitores para a garantia de sua continuidade, a versatilidade nos quadrinhos, além de ser um profundo diferencial em meio ao crescente mercado competitivo entre editoras, serve como fonte para a difusão da criatividade do roteirista e do quadrinista, que precisam trabalhar juntos para a harmonia completa da obra.

A disputa entre Marvel e DC sempre foi presente em meio ao mundo nerd antes mesmo de se estender ao mundo da cultura pop. Com a criação do Marvel Cinematic Universe, uma guerra tempestuosa entre os novos fãs das duas editoras foi iniciada, tendo como intuito saber quem copiou quem. Em bem da verdade, tanto Marvel quanto DC foram influenciadas em diversos momentos pelo que o próprio mercado exigia, em decorrência da velha lei da “oferta e demanda”.

Vamos pensar o seguinte: a DC Comics criou, por volta dos 60, a Liga da Justiça, cuja primeira aparição foi na clássica HQ The Brave and the Bold, escrita por Gardner Fox. Reunindo seus heróis mais famosos e clássicos, a revolução nos quadrinhos foi imediata, assim como o seu estrondoso sucesso. Você acha mesmo que a Marvel iria dormir no ponto e não aproveitar pra dar uma revitalizada em suas obras? É claro que não! Inspirados pela ideia genial da editora concorrente (e de olho na grana extra), Stan Lee e Jack Kirby, em setembro de 1963, deram um jeito de convocar os “Heróis mais Poderosos da Terra”, resultando na criação dos Avengers. Isso prova que, querendo ou não, não existe cópia, e sim inspirações em personagens e histórias clássicas que marcaram gerações.

Ao contrário da linearidade contínua do universo oficial adotado por grande parte das histórias produzidas pela Marvel, a DC sempre priorizou a liberdade criativa, dando asas aos seus roteiristas e quadrinistas para fazer o que bem quisessem com os personagens da editora. Isso implica que um roteirista poderia estar fazendo uma história em 1970, mas poderia pegar um personagem dos anos 40 e trazê-lo ao centro das atenções novamente. Por conta de toda essa liberdade desenfreada, a linha editoral se tornou um completo caos. Na época, era comum que leitores se confundissem quanto a origem de personagens clássicos, como Batman e Superman, pela extensa quantidade de obras a respeito dos dois. Era hora de uma reforma geral em toda a cronologia do universo DC, algo que marcaria o passado, o presente e o futuro da empresa.

Com a construção atrasada do DC Extended Universe (DCEU), o conceito do Multiverso nunca havia sido explorado em outras mídias além dos quadrinhos e animações. Mas é aí que, em sua segunda temporada, The Flash surge com brilhantismo e simplicidade para explicar uma ideia tão complexa e bagunçada.

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Caso você viva no mundo da lua ou não conheça nada sobre o personagem e muito menos sobre a produção da CW Entertainment, aqui vai um breve resumo: Com o sucesso premeditado do personagem protagonizado por Grant Gustin no episódio 15 da segunda temporada de Arrow, o pontapé inicial para o estabelecimento de um sólido mundo da DC no meio televisivo foi dado. Com a união de nomes como Greg Berlanti, Geoff Johns e Andrew Kreisberg, nasce a adaptação do personagem Flash, baseada nos quadrinhos feitos por Gardner Fox e Harry Lampert.

The Flash é focada na vida trágica e ao mesmo tempo cômica de Barry Allen, um perito forense cujo passado lhe assombra constantemente. Em uma noite de sua infância, um homem envolto por um borrão amarelo acabou por assassinar sua mãe. Sendo acusado injustamente, seu pai é sentenciado ao cumprimento de uma pena no presídio de Iron Heights. Jurando provar a inocência de seu pai, Barry acaba por carregar consigo durante toda a sua infância até a sua vida adulta um sentimento de culpa pelo ocorrido, empreendendo uma busca incansável ao lado de Joe West, amigo de seu pai que lhe serve como figura paterna, e sua filha, Iris West, que acaba por funcionar como seu interesse amoroso. Ao ganhar poderes além da compreensão humana em decorrência de uma explosão em um reator de partículas ocasionado pelo projeto de seu ídolo no campo da ciência, Barry consegue enxergar uma nova oportunidade para mudar o rumo não só de sua vida e a de seu pai, mas para fazer a diferença em sua cidade natal.

Se tratando de uma série voltada majoritariamente para o público adolescente e por ser produzida pela CW, rede conhecida por séries como Supernatural, The Flash balança na linha tênue entre o drama e a velha história do vilão da semana. Entretanto, ao contrário de Arrow, que não sabe se escolhe construir uma trama séria aos moldes dos filmes de Christopher Nolan, fonte de inspiração para a sua primeira temporada, ou manter sua narrativa em uma espécie de novela mexicana centrada no romance de Felicity e Oliver, a série do velocista mais rápido do mundo sabe que suas ameaças são galhofas e até ridículas, mas utiliza de um artifício essencial para cativar o público, que é justamente não negar a forte influência dos quadrinhos; e não há nada mais quadrinhos do que o famoso Multiverso.

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Após a viagem no tempo não tão bem sucedida de Barry Allen para salvar a sua mãe em decorrência de uma oferta promovida por seu algoz, Eobard Thawne (que aqui adota a identidade de Harrison Wells), um evento catastrófico ocasionou a ruptura da linha temporal, ameaçando a cidade de Central City. Em um ato heroico, o Flash decide fechar o vórtex que iria reconstituir o espaço-tempo em detrimento da já existente Terra-1. Subindo em prédios em uma velocidade assustadora, a câmera foca no herói por uma última vez no momento em que ele adentra na deformidade temporal. Créditos sobem, fim da primeira temporada

Ao inciar a temporada seguinte, somos bombardados por informações dos mais diversos núcleos. Primeiramente, Barry conseguiu salvar a cidade mais uma vez, recebendo o título de salvador e até um feriado com o seu nome. Contudo, as vítimas do acidente ainda atormentam a mente do herói, além das feridas e rastros de destruição serem vistos em toda a cidade. Mas, sem sombra de dúvidas, a mais importante é a existência de uma teoria apresentada pelo personagem Martin Stein, na qual ele afirma a existência de terras paralelas em diferentes linhas temporais, que mais tarde se comprova com o aparecimento do vilão Zoom, vindo da apelidada “Terra-2“.

Do ponto de vista dos quadrinhos, o Multiverso surgiu como forma de celebrar os 50 anos da DC Comics, em 1985. Utilizando a ideia do aniversário de meio século, os editores chegaram ao consenso de que era hora de uma repaginada na editora para torná-la mais amigável ao público, cuja principal reclamação era a falta de compreensão sobre os diversos mundos que já haviam sido criados. É daí que surge a clássica HQ Crise nas Infinitas Terras, escrita por Marv Wolfman, sendo dividida em uma minissérie com 12 capítulos, tendo como consequência o reiniciamento do universo DC através da destruição de múltiplas terras, com exceção de cinco: Terra-1, Terra-2, Terra-S, Terra-4 e a Terra-X. Esses cinco mundos foram unificados em um só, chamado de “Nova Terra”. Porém, no meio dessa “mistureba” toda, vários fãs mais aficionados apontaram irregularidades sobre a origem e história de personagens importantíssimos, tendo como exemplo o caso da Canário Negro da Terra-1 que era filha da Canário da Terra-2, além da existência de futuros distintos em uma mesma linha temporal.

Com o tempo, diversos autores tentaram organizar o caos instaurado. De fato, mesmo que por mais confuso que fosse, o conceito de múltiplas terras sempre foi uma referência na história da produção de quadrinhos e até mesmo em filmes de ficção científica, sendo impossível abandoná-lo. Durante anos, diversas tramas surgiram com o intuito de manter uma cronologia coesa, como é o caso do Hipertempo, utilizado pelos escritores Mark Waid e Grant Morrison em uma série chamada The Kingdom, que mais tarde iria ocasionar na criação da premiada história Reino do Amanhã. Além disso, não devemos desconsiderar a relevância de Geoff Johns, que introduziu a continuação de Crise nas Infinitas Terras, através da série Crise Infinita, onde Johns fazia críticas pesadas ao rumo obscuro que os personagens da editora haviam tomado desde a primeira utilização do conceito do Multiverso.

A noção do conceito de múltiplas terras em The Flash só é abordada de fato durante os episódios “Welcome to Earth Two” e “Escape from Earth 2“, presentes na segunda temporada. Neles, acompanhamos a ida de Cisco, Barry e Harry para a Terra-2, na tentativa de resgatar Jesse Quick. Ao contrário do que é apresentado nos quadrinhos, a terra mencionada é claramente uma reprodução da Terra-3 original, onde a personalidade de todos os personagens são invertidas. Em ambos os episódios, nos deparamos com mudanças tão bruscas que beiram o paradoxo, como é o caso da doppelganger de Caitlin Snow, chamada de Killer Frost, uma assassina sem coração e dotada de poderes. Outro caso específico é o do personagem Joe West, que na Terra-2 é um cantor que detesta o seu genro, Bartholomew Allen, apelidado de Barry.

 

The Flash -- "Escape From Earth-2" -- Image FLA214b_0224b -- Pictured (L-R): Danielle Panabaker as Killer Frost, Candice Patton as Earth 2 Iris West, Grant Gustin as Earth 2 Barry Allen, Carlos Valdes as Cisco Ramon, and Tom Cavanagh as Harrison Wells -- Photo: Bettina Strauss/The CW -- © 2016 The CW Network, LLC. All rights reserved.

Com a escalação de Ezra Miller para o papel de Barry Allen na adaptação do Flash para o cinema, com roteiro de Phil Lord e Chris Miller, uma dúvida pairou entre os fãs mais recentes da série: todo o excelente trabalho de Grant Gustin como o velocista seria desconsiderado ou os filmes iriam se conectar com as séries em algum ponto? Quando questionado sobre a divisão entre séries e filmes baseados nos personagens da editora, Zack Snyder, diretor de Man of Steel e Batman v Superman: Dawn of Justice e principal idealizador do DCEU no cinema, foi categórico: “Esses personagens são muito maiores do que qualquer interpretação ou ator. Ao invés de reunirmos todos os personagens em uma única história, decidimos deixá-los existir em um multiverso, agregando um valor muito maior para a audiência.”

De fato, Snyder apresenta um forte ponto. Com opiniões mistas e críticas pesadas em relação ao seu trabalho em Batman v Superman, a ideia de apresentar dois universos completamente diferentes no quesito tom e estilo de narrativa acaba por beneficiar o público. Enquanto um é marcado pelo tom sombrio e pesado, voltado essencialmente para adultos e fãs de quadrinhos que já possuem conhecimento prévio sobre diversas histórias da DC, o outro é marcado pelo humor e a utilização de cores vivas, como foi demonstrado no crossover de Supergirl e Flash, sendo mais amigável para novos fãs.

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Entretanto, isso não significa que Zack Snyder e Geoff Johns, nomeado Diretor de Criações da DC Comics, não estejam preparando algo maior. Por estar envolvido diretamente em quadrinhos, na produção de filmes e nas séries da CW, Geoff funciona como uma espécie de Kevin Feige, exercendo controle criativo sobre os três maiores centros da empresa. Já Snyder, que agora enfrenta um possível afastamento após o fim das filmagens de Liga da Justiça – Parte Um das obras da DC Comics no cinema por conta do deslize abrupto em seu último longa, precisa estabelecer conexões com David Ayer, Patty Jenkins e James Wan, responsáveis pelos filme do Esquadrão Suicida, da Mulher-Maravilha e do Aquaman, respectivamente, para garantir a construção de uma base sólida para a conclusão do arco da Liga da Justiça, em 2019, com o lançamento de sua segunda parte.

É importante ressaltar que Ezra Miller já apareceu exercendo o seu papel como o “Velocista Escarlate” em Batman v Superman, em uma das cenas mais importantes de todo o filme. Na tentativa desesperada de avisar Bruce Wayne sobre o futuro distópico que aguarda toda a humanidade com a tirania de um Superman conturbado pela morte de Lois Lane e a invasão de Darkseid ao planeta, relembrando a clássica história Injustice, Barry Allen rompe a barreira do espaço-tempo por alguns instantes, emitindo uma mensagem que é interpretada como uma espécie de premonição por Bruce. A ruptura citada, assim como na série, pode apresentar o ponto de ignição para a apresentação do Multiverso nos futuros filmes, estabelecendo uma conexão com o que já foi apresentado na TV.

Com mais teorias do que certezas, a ideia do Multiverso no cinema é tão incerta quanto nos quadrinhos. Todavia, The Flash apresenta o material bruto para um público que reagiu positivamente ao conceito. Com as ferramentas certas e uma mente criativa que lidere o processo, a rocha bruta pode ser lapidada para algo grandioso. Talvez, com sorte, uma certa “Crise” esteja perto de se concretizar.

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