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Não há razão para rir da versão animada de A Piada Mortal

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AVISO! O TEXTO ABAIXO CONTÉM SPOILERS!

2016 está sendo um ano difícil para quem esperava adaptações cinematográficas protagonizadas pelo Morcegão de Gotham City. Apesar de achar Ben Affleck a versão derradeira do Batman e gostar do trabalho de Zack Snyder na direção, é evidente que Batman v Superman: A Origem da Justiça está bem longe de ser um filme perfeito. Com problemas no roteiro e no desenvolvimento dos personagens, amenizados por uma versão estendida que mais funcionou como um pedido de desculpas, o filme não faz jus ao tão esperado encontro da “Trindade” de heróis da DC Comics no cinema.

Durante o painel da animação Justice League: Gods and Monsters, realizado na Comic-Con de 2015, o roteirista e diretor Bruce Timm anunciou que a obra consagrada de Alan Moore e Brian Bolland, Batman: A Piada Mortal, receberia uma versão animada, com adição de um prólogo que serviria para situar melhor a história. Com o retorno de Kevin Conroy e Mark Hamill aos papéis de Batman e Coringa, respectivamente, além de uma censura para maiores de 18 anos, é fácil imaginar que a expectativa tomou conta dos fãs do personagem. Era certo que a animação fosse ser um sucesso.

Contudo, se você achou a versão do Batman de Zack Snyder problemática, sinto lhe informar; Bruce Timm e Brian Azzarello (responsável pelo roteiro da adaptação) – com um redundante prólogo e uma animação que aparenta não estar finalizada, conseguem ofuscar a obra original.

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“Sei que este não é o começo que você estava esperando”, diz uma Batgirl que acredita na emoção da luta contra o crime em Gotham City. De fato, a surpresa com a personagem no papel de narradora é imediata, já que Alan Moore nunca citou os tempos de atuação da Batgirl dentro do cenário de A Piada Mortal, mas a proposta não deixa de ser curiosa. Observar a sua relação com Bruce Wayne e o fim de sua carreira como heroína poderia introduzir a carga emocional necessária a trama da animação, além de apresentar um bom fanservice.

Infelizmente, o prólogo de A Piada Mortal é dispensável, cansativo, ofensivo e carregado por uma exacerbada sexualização. Objetificada sexualmente por um gângster narcisista sociopata, Barbara entra em conflito consigo mesma para entender seus sentimentos por Bruce Wayne, tornando-a uma adolescente de quinze anos de idade apaixonada pelo garoto badboy de seu colégio. Como se não bastasse, ainda temos o estereótipo do amigo gay da protagonista que só serve para dar conselhos e dizer como solucionar conflitos com base em seus relacionamentos anteriores.

Se o objetivo de Azzarello era tornar a personagem forte, seu fracasso se torna evidente ao submetê-la ao romance clichê que já estamos cansados de ver nos quadrinhos. A cena de sexo entre Batman e Batgirl só serve para criar um clima tenso na relação entre os dois, que se torna insustentável no momento em que a personagem enxerga a linha tênue entre a sanidade e o abismo da loucura entre aqueles que carregam o símbolo do morcego. Ao meu ver, tal decisão só a torna mais frágil e impotente perante os acontecimentos posteriores.

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Após 30 minutos sofríveis, entramos no ponto de partida verdadeiro de A Piada Mortal. Acreditei que as coisas iriam melhorar, quando, na verdade, o show de horrores estava longe de terminar. Se mantendo fiel ao roteiro de Moore, com adição de uma coisa ali e outra aqui, a animação sofre com sérios problemas de acabamento. Mesmo com performances exemplares de Mark Hamill e Kevin Conroy, as feições de seus personagens aparentam estar em constante descompasso com a fala.  É como se o boneco estivesse ali, mas falta aquele toque de vida para torná-lo único.

Em seu lançamento, A Piada Mortal gerou grandes discussões entre os fãs de quadrinhos sobre certas ambiguidades presentes no roteiro da obra. A verdade é que a animação acaba por aniquilar qualquer dúvida sobre os acontecimentos mais debatidos, como o possível estupro de Barbara Gordon, realizado por Coringa. A sexualização da animação, iniciada com a personagem de Barbara Gordon e reafirmada com o Batman conversando com um grupo de prostitutas que afiram que o Palhaço do Crime é um frequentador assíduo do bordel, acabam por reforçar a ideia do ato criminoso. Em entrevista, Bruce Timm disse que o ato não foi realizado, mas tal afirmativa funciona mais como controle de danos pelo fracasso da obra do que uma resposta séria, tendo em vista todos os pontos apresentados.

Quanto ao questionamento se o Coringa foi morto ou não, a animação deixa bem evidente que Bruce Wayne rompeu seu código moral para dar um fim ao relacionamento entre os dois. A inexistência de elementos como a chuva forte e a presença das luzes dos postes, característicos da cena clássica vivenciada na HQ, alteradas por uma câmera que foca em um fundo preto, o abrupto término da risada de Hamill com a sobreposição da risada de Conroy e uma leve garoa, serve para dar fim à qualquer discussão sobre o acontecimento.

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Batman: A Piada Mortal aparenta ter sido contada por um péssimo comediante que não soube utilizar o timing ao seu favor. Na tentativa de expandir o universo da história, Azzarello utiliza uma forma clichê e ineficaz de tornar a principal vítima das consequências da rivalidade doentia entre Coringa e Batman em um símbolo de representatividade, que acaba fracassando por uma sexualização pífia e desnecessária. Mesmo com o esforço do elenco, a animação demonstra inconsistência entre atuação e representação das feições e movimentos, causando estranheza.

Parece que o trabalho de Alan Moore em amaldiçoar as adaptações cinematográficas de suas obras demonstra ser eficaz mais uma vez, e está longe de terminar.

 

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